domingo, 9 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS INFANTIS JUNTO A DONA DIDI

Aconteça o que acontecer, a Lei Cósmica estará sempre se cumprindo de maneira correta e justa em nossa vida, em consonância com a verdade.

Minha mãe gostava de costurar e comprava aviamentos nas lojas dos turcos, na rua 4, como chamávamos, então, aquele comércio a um quarteirão de nossa casa. Acompanhá-la nessas empreitadas constituía um passeio disputado pelas crianças a cada vez.

Didi, Tanit, Sônia, Deolinda, Mariazinha, Leandro, no CEIC.
Mantínhamos muito contato com nossas tias, as suas primas e irmãs de criação – Hilda e Agda. Tia Hilda e Tio Adail tiveram cinco filhos que cresceram junto conosco, os primeiros cinco filhos de Dona Didi. Tia Agda e tio Daniel tiveram apenas quatro, mas convivemos apenas com os dois mais velhos, porque ela espaçou bastante uma gravidez da outra. Nós adorávamos essa convivência, extremamente animada, em razão de tantas crianças juntas.

Nos finais de semana costumávamos fazer os passeios ao campo, conforme relatei anteriormente. Meus pais faziam questão de manter uma chácara ou fazendinha, mas dificilmente dormíamos lá. Acho que minha mãe era urbana, apesar de se sentir atraída pela zona rural e a fartura de uma fazenda. Durante alguns anos tivemos uma propriedade à beira do Rio João Leite, próximo a Nerópolis, cerca de uns 20 quilômetros de Goiânia. Lembro-me de que eram dois sítios juntos com 6 e 8 alqueires especificamente. Em uma dessas partes havia uma pequena plantação de café com 18.000 pés, creio.

Dona Didi em viagem à Holanda, 1989.
Recordo-me de dois episódios daquela época. Um dos caseiros tinha vários filhos e minha mãe era madrinha de quase todos que iam nascendo a cada ano. Meus pais sempre foram bons com os empregados. Além do salário justo, presenteavam-nos com remédios, roupas, brinquedos e material escolar para as crianças, sobretudo. Eles podiam usar tudo na propriedade, criar galinhas, porcos. Tinham leite e queijo à vontade. Minha mãe trazia dois queijos a cada final de semana para nosso consumo.  Engraçado era que era ela que cozinhava para todo mundo nessas ocasiões. Os caseiros todos se beneficiavam de seus saborosos almoços domingueiros! Uma vez, a caseira e comadre de minha mãe, a esposa do Albertino, lhe disse que as vacas estavam fazendo greve e não havia queijo aquele dia. Uma das crianças presentes ouvia em silêncio. De repente, ela abriu o armário na vista de todos e o mostrou abarrotado de queijos! Ficaram todos constrangidos! Imagino como aquela criança deve ter sido castigada por sua franqueza infantil ainda sem máscaras.

Outra vez, fomos a uma fazenda onde havia muitos cavalos e resolvemos montar. Saímos em disparada e a Bené ficou dependurada num galho mais baixo de uma árvore. Nós ríamos muito enquanto o cavalo fugia em disparado protesto contra aqueles pré-adolescentes malucos!

Minha mãe costumava dizer que todos nós estamos fadados a evoluir e esta é a lei de Deus! Uns caminham à frente, outros vêm mais atrás, mas todos nós, um dia, chegaremos lá! Afinal, temos a eternidade! 






terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O PRESENTE DE DONA DIDI


Cachorros filas criados na Creche.
Preconiza o ditado popular que sempre existe um chinelo velho pronto para acolher um pé torto. Minha mãe gostava muito dos animais! Criava dois cachorros filas na creche e ao chegar lá, a cada manhã, tinha sempre um afago para eles ou alguma guloseima! Todavia, não gostava de animais dentro de casa, mesmo porque morava em apartamento.

Nos intervalos das aulas que  eu ministrava em duas instituições em Goiânia,  eu costumava visitar mamãe em seu apartamento  no Edifício Trianon, na Rua Quatro. Como ele era bem central, ia ao banco pagar contas e, às vezes, esperar o horário de outra aula ou reunião, enquanto conversávamos e eu curtia a sua companhia, além de ser brindada com chá e biscoitos assados na hora.

Cão Fila.
Um dia, ao chegar, encontrei mamãe preocupada! Disse-me que havia ganhado um presente de alguém de quem ela gostava muito e não sabia o que fazer com a peça. Levou-me para vê-lo e não pude deixar de rir...

Didi e sua filha Sônia, em 2001.
Imaginem que era um enorme cachorro preto com mancha branca e língua vermelha! Claro que quem a presenteou teve a melhor das intenções! Ela me explicou que tinha sido a sua funcionária de maior confiança na creche. Esta senhora sabia que ela gostava muito dos dois grandes cachorros filas! E como ela morava em apartamento e não podia tê-los por perto, ela havia comprado aquela grande figura para que ela o colocasse em seu criado mudo e lembrasse sempre de seus animais queridos!

Mamãe naquele momento sofria deveras com o problema! Não sabia o que fazer com o presente e não o queria em sua casa! Disse-me que certamente se assustaria se acordasse no meio da noite e o tivesse no criadinho do quarto. Achava que ele era muito grande para outros ambientes do pequeno apartamento... O que devia fazer?! Sentia certo remorso, porque sabia que ele devia ter custado boa parcela do pequeno salário da boa servidora.

Eu ainda sorria quando lhe disse que ela tinha duas opções para não magoar a sua bem intencionada amiga! Podia colocá-lo perto de uma porta, no chão, onde alguém possivelmente fosse esbarrar e quebrá-lo incidentalmente... Ou, melhor, ela podia lembrar-se de alguém que gostaria  de receber aquele presente.

Sua filha Regina,  em 2010.
Ela pensou por uns instantes e me respondeu que já sabia quem amaria o cachorro de louça preta e língua vermelha!

Eu me prontifiquei a levá-la à casa da nova presenteada imediatamente! Colocamos o objeto no banco de trás do carro com todo o cuidado e nos dirigimos até a casa de sua amiga Maria das Dores!

E, realmente, como ela ficou feliz com o presente! Ela não o esperava e o achou lindo! Agradeceu emocionada e soubemos depois que ela tinha muito orgulho de seu cachorro e sempre se lembrava orgulhosamente de que havia sido um presente de sua querida Dona Didi.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

NATAL NA CRECHE CASA DO CAMINHO



Crianças da Creche, antes da festa.
Ontem, dia 15 de dezembro, organizamos o Natal das crianças e funcionárias dessa creche. A Creche Casa do Caminho foi inaugurada oficialmente, em 1974, depois de muitas campanhas em prol de sua construção. O terreno foi doado por um casal de médiuns na época – João e Nair – e sempre contou com a ajuda dos irmãos do caminho e de outros simpatizantes da obra.

O espaço é amplo, muito bem administrado, tem salas diversas de acordo com a idade das crianças (zero a quatro anos), tendo berços, colchonetes para descanso, mesinhas e cadeirinhas, brinquedos, tudo amorosamente decorado para receber as crianças selecionadas entre os filhos de mães pobres e trabalhadoras.

Até hoje o horário de funcionamento da Creche é de 7h até às17h, tempo em que as mães podem ganhar o sustento da família, confiantes de que seus filhos estão bem cuidados e orientados.
Didi, em 25.11.1996.

Minha mãe, a Dona Didi, ocupou-se da direção da creche por muitos anos. Era a sua primeira tarefa matutina. Estava lá toda a semana às 6h30 da manhã, porque gostava de receber cada criança, junto com a coordenadora da creche.

Depois visitava a cozinha e estipulava o cardápio do dia, dava atenção especial a cada um, sempre tinha uma palavra carinhosa, um gesto amoroso com as crianças e funcionárias. Gostava de disciplina e as crianças acostumavam com os horários e as atividades educativas planejadas.

A atual responsável pela creche é Lucimar Gomes Cordeiro que conta com a colaboração de seis funcionárias e o apoio da instituição mantenedora – o Centro Espiritualista Irmãos do Caminho.

Conseguimos madrinhas para as 39 crianças e cada uma recebeu um kit especial, com roupas, calçados, brinquedos e material pré-escolar, entregue durante um lanche com apresentações culturais de voluntários e do próprio coral da creche, além da presença do Papai Noel.

Apresentação do Coral da Creche, 15.12.10.

É difícil descrever o que sentimos ao compartilhar a alegria contagiante das crianças que demonstram surpresa e incredulidade ao receberem tantos presentes de uma vez! Agradeço a todos, encarnados e desencarnados,  que contribuíram direta e indiretamente para que isso pudesse acontecer!
















quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

LEMBRANÇAS DE MINHA MÃE – DONA DIDI!


Filha de Dona Didi.

Minha mãe costumava dizer que sua existência se dividia em antes e depois de se tornar espírita. Apesar de todo cristão se espelhar nos ensinamentos de Jesus, o espírita, geralmente, leva a sério a questão da reforma íntima e tenta se melhorar aparando as suas arestas com mais vigor!

Ela dizia que antes de conhecer o espiritismo, por exemplo, ela nunca tinha dificuldade com empregadas. Em sua época, as empregadas moravam no trabalho e dificilmente tinham folgas. Ajudavam os patrões sempre e eram fiéis, prestativas, a qualquer hora que eles necessitassem. Mais tarde, ela passou a ser mais flexível e dizia nunca mais ter encontrado funcionárias como as de antigamente. Claro, que isso tem muito a ver com a evolução, a conquista dos direitos trabalhistas, o crescimento do mercado de trabalho, entre outras coisas, mas Dona Didi preferia simplificar a sua teoria.

Didi, José Araujo e filho Marco, 1945.
Lembro-me de que ela era muito ciumenta! Papai era o típico homem machista da época – a década de 50! Ele tinha um escritório de representações na Avenida Anhanguera e minha mãe tinha ciúme de suas secretárias. Uma vez, ela me levou até lá, puxando-me pelo braço o caminho todo, porque eu não conseguia acompanhar os seus passos! Ao chegar ao escritório térreo, ela percebeu que patrão e secretária estavam no pequeno banheiro, armou verdadeiro barraco e ambos saíram logo, lavando as mãos!
No dia seguinte, ela convidou a referida secretária para um chá em nossa casa. Ela foi e admirou o cuidado da mesa farta e bem posta, com porcelana legítima! Durante o chá, em meio a impropérios, a secretária foi brindada com chá quente no rosto e meu pai obrigado a despedi-la pela harmonia familiar!

O espiritismo não era bem visto naquela época. A cidade era pequena e os padres se incomodavam com os movimentos sociais dos espíritas! Um grupo da mocidade da Tenda do Caminho começou um trabalho semanal de arrecadação de alimentos. Eles passavam nas casas, no domingo pela manhã, e cada um doava o que podia. Eles costumavam deixar os saquinhos de papel da campanha Alta de Sousa para que simpatizantes recolhessem junto à vizinhança, facilitando o seu trabalho voluntário.

Filho Marco Antonio, 1952.
Minha mãe resolveu pedir a uma de suas vizinhas, na rua seis, que parecia deter maior poder aquisitivo. Essa respondeu que teria que pedir autorização ao padre da igreja Coração de Maria. Minha mãe ficou muito indignada, mesmo porque o padre desautorizou o ato de caridade, dizendo ser tudo prática do diabo! Passamos a nos referir à vizinha de pede padre...

Minha mãe nos matava de vergonha algumas vezes. Hoje, a gente sorri de suas idéias, lembrando-nos de suas colocações com carinho saudoso, mas era tão difícil concordar com algumas de suas afirmativas!

Imagina que ela dizia não acreditar que o homem tivesse ido à lua! E, o pior, é que não temia fazer estas declarações em público, para o constrangimento de seus filhos!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS DA DONA DIDI – SEGUNDO CADERNO – PARTE FINAL



Didi, em 25.11. 1996.
8.11.1997

Quando retornei ontem a meu apartamento, após a quinzena em Salvador, a minha passadeira Maria já estava me esperando para fazer-me companhia. Meus filhos haviam assentado para eu ir almoçar na casa do Air. Esta é a data em que sempre comemorei o meu aniversário, apesar de, há poucos anos atrás, eu haver descoberto que nasci em 15 de julho.

09.11.1997

Hoje comemoramos o meu natalício na casa do Júnior. Cada filho levou um prato e o almoço foi ótimo! Meu Deus, o que será de mim? Clélia, Celina me deram presentes e Sônia me deu uma torta, Bené, uma corbeille de flores. Que Deus me ajude e faça com que a aposentadoria do José que encaminhei ao INSS seja resolvida para mim. Também, se o José tiver direito ao seguro da SINCOR, ajude ao senhor Marcos a arrumar isto para mim. Ainda, os seis mil da poupança do José, que eu tenha direito a ela. Estou numa penúria, não sei o que devo fazer, minha cabeça não consegue planejar nada, só sinto falta do José... Vim da casa do Júnior para o meu apartamento no Trianon, estou sozinha, esperando pela Maria.

10.11.1997

Hoje veio outra moça chamada Maria para morar comigo e me ajudar no serviço doméstico. Convivi por vinte e um anos com o José sem empregada. Foi uma vida organizada, sem problemas com terceiros. Eu dei conta do serviço da casa e atendi ao José em tudo que ele queria. Quando viajávamos de carro para Caldas Novas, Araxá ou para trabalhos espirituais, eu vigiava tudo, lia placas e descascava maçãs, partia biscoitos e bolachas para dar a ele enquanto ele dirigia o carro. Fazia companhia para ele em tudo!

26.11.1997

Didi e neta Fábia, 1990.
A minha vida tem sido amarga nesses dias. Tenho ido à casa da Celina, da Sônia, do Júnior e Regina tem-me levado à pirâmide algumas vezes. Estou à mercê da Espiritualidade. Ontem comprei castanha portuguesa e me lembrei do José. Ele gostava tanto! Também comprei dois panetones para o Natal... Ah, meu Deus, o que será de mim? Espero que Deus me ajude, não peço esquecimento dele, mas peço a Deus para me tirar este sentimento de angústia, de solidão e a saudade bruta que tenho de meu José. Preciso cumprir os meus dias restantes aqui neste orbe. Peço a Deus que encaminhe o José para que ele seja muito feliz onde estiver.

08.12.1997

Maria Luiza, Renata, Bart, Shirley, Júnior chegaram hoje da Holanda e levamos todos para a casa da Celina. A vida tem sido de muitos afazeres. Tenho feito sobremesas, bolos, gelatinas e levado para eles. Fiz questão de estar sempre com a Luiza, mandei fazer um banheiro na suíte que ficou mais de mil reais. Empreitei o reboco, o telhado e um pedaço de piso que faltava na garagem e na área. Tudo ficou acima de quatro mil reais. Tenho estado sempre presente na casa da Celina, junto com Luiza e Renata. Juninho não gosta de mim, não sei o que ele pensa. Talvez sejam problemas de existência anterior. No dia 20, fiz uma peixada para todos e levei para comermos juntos na casa da Celina. Todos gostaram e elogiaram muito!

16.12.1997

No dia dezesseis foi a inauguração da loja da Luiza e da Sônia e foi muito bonita a festa... Passamos a noite de 24.12 todos juntos no apartamento da Clélia. Fiz um peru que a Clélia nos trouxe a pedido da Luiza e ficou muito gostoso. A Luiza ensinou colocar toucinho e papel laminado e ficou muito bom. Fiz ainda uma maionese e não sobrou nada.

25.12.1997

Didi com filhos pequenos, Marco e Regina, 1951.
Ontem passei a noite com taquicardia e hoje também. Melhorei e fui para casa da Celina ficar um pouco com a Luiza. Renata chegou às 9h da manhã. Às 14h fomos para o aeroporto levar todos para embarque rumo ao Rio de Janeiro, onde ficarão em excelente hotel. Dia 28 retornarão para a Holanda onde residem.

Ganhei de Natal um porta-retratos da Sônia, uma linda embalagem com bananas secas da Regina e 150 dólares da Luiza e um perfume da Flávia, amiga secreta.

27.12.1997

Hoje às 17 h a Bebé, minha cunhada, me telefonou, exatamente dois meses e 17 dias após a morte do José.

31. 12.1997ri

Preferi ficar em casa e fazer o culto evangélico às 23h, acender velas e vibrar para o Zezé. Todos os filhos me convidaram para acompanhá-los, mas eu não quis sair.

1.1.1998

Didi com amiga Elzinha, em Salvador, 1997.
Júnior e eu fomos a Ribeirão Preto visitar o Marco Antônio. Saímos de Goiânia às 5 h da manhã e chegamos lá às 15h. Marco mora agora na Rua Cerqueira César, nº 78, em pequeno apartamento no centro. Fomos à casa do Bruno e da Fernanda. Eles são muito bons! Fui ao Cemitério da Saudade e acendi muitas velas. Passeamos e conhecemos parte da cidade. Voltamos no dia 3/1/98, e chegamos às 19h.

27.1.1998

A vida está muito difícil. Maria, minha empregada, é muito sem juízo. Usa meu telefone para toda baboseira. A conta vem imensa. Comprei as coisas de que ela necessitava, roupinha de bebê, camisola e todas as coisas. Depois arranjei a maternidade e ela foi dar à luz. Criatura sem sentimentos. Fez muito abuso aqui. Sujou no prato que comeu!

Hoje fui ao Dr. Nardelli, especialista em olhos, no setor oeste. Ela falou que preciso operar a vista.

Dia 15 de janeiro passei em Caldas Novas. Fui sozinha, queria passar o aniversário de 21 anos de minha união com o José e achei louvável estar sozinha.

5. 6.1998

A vida tem sido difícil de suportar com tanta solidão. Minhas filhas me convidam sempre para almoçar com elas... Dormi quatro noites no apartamento da Sônia, mas retorno sempre ao meu lar. Todos os meus filhos são ótimos, mas não devo dar trabalho, tampouco preocupações para eles. Tenho ajudado o Marco, o Júnior e a Clélia. É muito pouco o que posso fazer, mas faço com amor e boa vontade.

7.6.1998

Didi na Creche Casa do Caminho, 1995.
Hoje Bebé, irmã do José, me telefonou novamente. O Dantas, outro irmão do José também morreu de câncer no fígado. O motivo de ela me ligar foi para avisar que a Walquíria, a filha torta do José quer requerer herança. Fiquei abismada. José sempre morou no era meu; o carro, o telefone, fui eu que lhe dei. Não tem nada no nome dele... Tenho que tomar precauções.

10.6.1998

Resolvi dar a escritura de doação do apartamento 62 do Edifício Drogasil para a minha filha Luiza. Telefonei para ela avisando para que ela me mandasse 2 mil dólares para o pagamento da escritura. Falei com o Aparecido do cartório e ele fez tudo direitinho, reservando o usufruto para mim. Queria doar para um neto, mas e os outros? Minhas filhas concordaram com isso, porque ela ficou com menos na primeira doação.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010



DEPOIMENTO DO MÉDIUM EDSON GOMES MAGALHÃES SOBRE A DONA DIDI

Edson em sua residência, 15.11.2010.
Conheci a Dona Didi em 1973. Eu tinha terminado o meu segundo grau, estava noivo e adoeci. Então, fui ao Centro para consulta, conduzido por minha mãe, quando já estava desenganado pelos médicos. Minha mãe era católica, freqüentava a missa todos os domingos, mas costumava também ir tomar passes no CEIC, nas segundas-feiras à noite.

Naquela época havia prece na creche aos domingos e passei a freqüentar aquelas reuniões semanalmente. Depois de um ano de tratamento, recebi permissão para vestir branco e participei dos trabalhos do centro por mais de trinta anos.

Casei em 74 e continuei no centro. Saí do CEIC, no final de 96, junto com Dona Didi. Nessa ocasião, ficou estabelecido que encerrar-se ia linha de umbanda, no CEIC, e fui para outra casa onde fiquei alguns anos. Soube mais tarde que o centro havia voltado ao antigo modelo. Retornei depois de cumprida a minha missão lá na outra instituição e porque Pantera me disse que meu verdadeiro compromisso é com o CEIC.

Didi, em 08.11.2001.
Tinha muita afinidade com os trabalhos realizados pelos guias de Dona Didi e a acompanhava sempre. Pantera era muito rigoroso em relação à disciplina e à ética e sabia que podia contar comigo e com o Compadre Zé Moreira, assim nós éramos escalados com freqüência. Eu sabia que estávamos sendo amparados e não fazíamos comentários, tampouco trabalhávamos paralelamente em benefício próprio. Doávamos tudo de melhor e nos sentíamos muito bem ajudando o próximo.

Em relação à doença que me levou ao espiritismo, soube mais tarde que uma ex- namorada havia feito um trabalho contra mim há muito tempo atrás. Assim, os médicos nunca conseguiram descobrir o que eu tinha. Antes, eu não acreditava em espiritismo e fugia dos centros. Então, fui levado pela dor. Tive uma doença sem diagnóstico. Nenhum médico sabia o que eu tinha. Nunca tinha sentido nem dor de cabeça anteriormente. De repente, eu me vi depressivo e enfermo, quase sem força. Não sabia o que havia depois da morte e tinha medo de começar a freqüentar um centro e não conseguir cumprir os compromissos assumidos.

Durante o meu tratamento espiritual, fui sendo desenvolvido e quando percebi as práticas espiritistas já faziam parte da minha vida. Aprendi a não buscar recompensa, participo dos trabalhos e já me sinto feliz com esta oportunidade.

Edson Gomes sendo entrevistado para o blog da Dona Didi.
Impossível deixar de acreditar depois de ter vivenciado o espiritismo ao lado da mediunidade de Dona Didi. Algumas vezes eu comentava alguma coisa na rua e à noite chamavam a minha atenção, coisas que apenas eu sabia que havia dito. Assisti, por mais de três décadas, a vários trabalhos de cura impossíveis de serem descritos. Lembro-me de trabalhos de cura em que Pantera com simples pedaço de algodão embebido em álcool tirava bolas de cabelo do estomago de um irmão do centro e ele se curou a partir daquele momento.

Houve um trabalho que jamais esquecerei. Aconteceu em uma tapera, uma casa velha e abandonada em uma fazenda. Dona Didi entrou incorporada em um quarto cheio de cobras, depois deu uma volta ao redor, fiscalizando tudo. Então, Pantera ia à frente e nós em fila indiana observando as cobras passeando próximas dos médiuns. Nunca vi tanta cobra junta na minha vida e era incrível observar a força espiritual que emanava do ambiente. A gente saia fortalecido e sem palavras ante a magnitude da espiritualidade.

Tive dificuldade em aceitar o relacionamento de Dona Didi e com o senhor José Nascimento. Acho que a gente a admirava tanto, que pensávamos que ele não estava à sua altura. Inicialmente, ele era casado e sua esposa estava com câncer. Nós íamos lá aplicar-lhe passes. Ela desencarnou e meses depois o senhor José e Dona Didi se uniram.

Didi,  com neto Gustavo ao colo e José Nascimento Dantas, em 1979.
Mais tarde acabamos entendendo que esse relacionamento foi bom para ela porque ela precisava de condução para cumprir todas as suas obrigações como médium, dirigente de casa espírita, responsável pela Creche. O senhor José era uma pessoa difícil de relacionamento e a principio não consegui entendê-lo, mas, hoje, sei que certamente eles tinham algum compromisso a cumprirem juntos e o fizeram.

Dona Didi era uma pessoa honesta, trabalhadora, incansável, responsável, tinha uma força espiritual digna de nota. Quantas vezes participei de trabalhos dirigidos por ela e seus guias, às vezes estava chovendo, mas a entidade não permitia que a chuva atrapalhasse o trabalho e víamos chover ao redor, mas aquele círculo de luz onde estávamos permanecia seco.

Dona Didi era excelente em termos de relacionamento. Muito positiva, falava o que era preciso e só falava o necessário com cada um de nós. Era líder por excelência! É difícil dizer o que a Dona Didi significou em minha vida. Para resumir, digo que tudo o que sei aprendi com ela e com Pantera! Ela, como médium, era exemplo de dedicação, disciplina, de respeito e amor incondicional. Como pessoa, sei que Dona Didi era querida e admirada por todos, apesar de só ter convivido com ela junto à espiritualidade.

Filha Celina, netos André e Paula, genro Luiz e Didi, 1986.
Quando comecei ir ao centro, ainda era solteiro, levei a minha namorada ao núcleo dizendo a ela que me tornara espírita e eu continuaria freqüentando o centro. Ela concordou. Três meses após o casamento, ela começou a reclamar. Como ainda não tínhamos filhos, dei a ela a opção de nos separarmos, porque não deixaria a prática da doutrina como médium de umbanda. Ela acabou aceitando, mas passou 31 anos me cobrando. São provas relativas às nossas escolhas. Soube que Dona Didi também não era compreendida pelos familiares que não aceitavam que ela priorizasse as sessões em detrimento de compromissos sociais.

domingo, 14 de novembro de 2010

MEMÓRIAS DA DONA DIDI





DIDI, 1968.
27.03.1997

Novamente José e eu fomos a Caldas Novas. No dia 28, fizemos a nossa obrigação da Sexta-Feira da Paixão. Ficamos lá até dia 31 de março quando retornamos a Goiânia. Não pudemos ir à piscina, pois choveu quatro dias sem parar.

17.04.1997

Hoje, quinta-feira, Maria veio fazer faxina no meu apartamento. Eu tive que ir à chácara para pagar ao caseiro Clodomiro o seu salário. Sempre que vou à chácara volto contrariada. São muitos problemas, eu não dirijo, não tenho carro e só posso ir lá quando a Celina me leva. Preciso vendê-la para tirar essas preocupações de minha cabeça. Faz quatro meses que me ausentei do centro. Tive muita desilusão! Tenho muita saudade dos trabalhos de meus guias em favor da humanidade. O meu espírito não se aclimatou ainda com o corte dos trabalhos espirituais. Sofri muitas desilusões com os encarnados. Todavia, adoro os meus guias e sei que eles me amparam sempre!

Tenho sentido uma solidão incrível, uma tristeza imensa, uma horrível insatisfação! Além dos meus afazeres usuais, tenho lido muito, feito crochê, enfim, procuro preencher o meu tempo...

20.04.1997

José e eu fomos para o Rio e depois a Cabo Frio. Assistimos às comemorações de São Jorge no mar e ficamos encantados com a beleza daquela energia. Ficamos no Caribe Park Hotel, até o dia 27, quando retornamos de Cabo Frio ao Rio e, então, de volta a Goiânia.

02.06.1997

José, Didi, Bené e Raimundo, jun.1997.
Resolvi dar a José a estadia de dois a seis de junho, para passarmos, em Caldas Novas, o seu aniversário. Fomos de carro com minha filha adotiva Bené e seu marido Raimundo. Eles ficaram na cidade e nós no SESC. Os dias foram bons e ficamos na colônia que está muito bonita. Bené e Raimundo nos convidaram para almoçar em uma churrascaria no dia cinco, para comemorarmos o aniversário do José. Mas ele não aceitou alegando não poder comer algumas iguarias, devido à doença que o aflige atualmente. Na próxima segunda-feira, dia 9, ele irá ao médico para saber o que tem.

06.06.1997

Vendi a chácara para o professor Marçal Sebastião Alves. Graças a Deus fiquei livre das obrigações, pagar caseiro, engolir contrariedades, ter aborrecimentos com o Ministério do Trabalho, furtos, entre outras coisas. Perdi muito dinheiro, mas afinal acabaram as amolações. Além do mais, José sempre brigou comigo por causa de minhas idas à chácara. Ele tem estado muito doente e tenho que cuidar dele.



14.06.1997

Bené e Didi, 1998.
Fiz diversos exames para saber o que tenho, mas não farei nenhuma cirurgia. Tenho reumatismo, problemas na coluna e, às vezes, nos rins, pressão alta e sou cardíaca. Mas José não está melhor e tem ido a vários médicos e feito inúmeros exames, ainda sem definição de seu quadro. Seu último diagnóstico foi apenas gastrite ou úlcera, mas ele continua muito doente.

20.07.1997

Ione telefonou de Ribeirão Preto dizendo que o casamento de meu neto Bruno será no dia seis de setembro e contou que sua namorada está esperando um filho.

09.08.1997

Saímos de Goiânia no ônibus da Gontijo, rumo a Belo Horizonte. Lá chegamos às 21 horas. José marcou as passagens para Guarapari para 22 horas. Embarcamos e durante a noite sentimos um frio horrível. Chegamos às 7h da manhã e fomos de táxi para o Guarapari Hotel. Foi terrível a permanência em Guarapari. José continua enfermo e gemia de dor todo o tempo. Não pudemos aproveitar nada. Etelvina, esposa do Sebastião, nos visitou no hotel. Depois, fomos ao apartamento que eles alugaram. Resolvi com José trocar as passagens, antecipando a data da volta. Viemos no dia 13, chegando a Goiânia no dia seguinte.

07.09.1997

Air, Didi e Sônia, 1982.
Hoje é dia da pátria. José esteve fazendo exames e também um Raio X do intestino.Resultado: diverticulite, a doença de nosso ex futuro presidente – Tancredo Neves. Ele está muito magro, estou lhe ministrando alimentação de duas em duas horas. Faço caldo de carne ou frango e cozinho as verduras e legumes, batendo tudo junto no liquidificador. Preparo mingau de fubá, creme de milho, descasco frutas como maçã e mamãe, triturando também no liquidificador. Faço-lhe vitaminas de laranja, cenoura e beterraba e ele toma pela manhã, juntamente com suplemento alimentar e a medicação receitada pelos médicos. Tenho dado conta de cuidar dele mesmo sem ter empregada e tampouco me sentindo saudável.

15.09.1997

A vida aqui em casa está lamentável. José está a cada vez mais doente. Não durmo fazendo todo o serviço da casa e cuidando dele dia e noite. Agora, há pouco, cheguei do medico – Dr. João Neves Neto – que pediu mais exames, todos caros, além de receitar inúmeros remédios. Estou pensando em como resolver esta parada. Aqui em casa está uma farmácia, vou dar todos estes medicamentos para alguma obra de caridade.

17.09.1997

Estou muito desolada. O exame do José – a tomografia computadorizada – deu muito ruim, cirrose e vários tumores no fígado. Ele passa noite e dia acordado, não tem sossego e nem agüenta ficar sentado ou de pé. Estou esperando sua irmã Bebé chegar de Bauru e iremos ao médico para ele me orientar que devemos fazer. O médico nos disse que ele tem câncer no fígado em estado avançado.

20.09.1997

A vida tem sido terrível. Estou cansadíssima. José não dorme dia ou noite. Não tenho empregada, aliás, passei os últimos vinte anos com José fazendo todo o trabalho doméstico, administrativo, espiritual e assumindo todas as dificuldades.

25.09.1997

Bebé, irmã do José, me disse que virá aqui pela manhã para me ajudar. A outra irmã – Lisete – também virá durante o dia. Estou querendo contratar um enfermeiro para a noite e peço a Deus que me mande a pessoa indicada.

26.09.1997

Raimundo, Bené e Didi, em Caldas Novas, 1997.
Hoje faz três anos que meu genro Adevaldes faleceu. Estou passando pelas mesmas dificuldades que minha filha Clélia vivenciou. Peço a Deus que me ajude e que eu tenha condições de internar o José em um hospital e consiga pagar as despesas. São 20h 20 da noite e estou sozinha como sempre neste horário e oro a Deus para que eu vença mais nestas dificuldades.

29.09.1997

Hoje internei o José no Hospital São Domingos no Setor Bueno. Ele ficou lá até o dia três quando retornamos para casa. Consegui pagar as despesas e Bebé me emprestou uma cama de hospital. Desmontei a cama de casal e organizei tudo para o José.

Ao chegar preparei uma sopa de frango com cará que bati no liquidificador e José tomou toda. Ronaldo veio às 14h30 dar banho no José. Não sei como vou agüentar esta passagem de minha vida. Está muito difícil de suportar! Estou cansadíssima e não sei quando terei sossego. Peço ajuda a Jesus e confio Nele.

04.10.1997

Hoje novamente internei o José no Hospital São Domingos. Ele está pior. Não anda, nem fala. Ficamos lá até o dia sete, quando ele desencarnou!

Graças a Deus, dei conta de fazer tudo direitinho e seu enterro será amanhã, dia 8 de outubro de 1997, no meu jazigo no Cemitério Santana. Ele foi velado no salão 03 do Jardim das Palmeiras, das 22 h do dia 07 até ás 9h da manhã. Estou desolada e vim para o meu apartamento Trianon e estou achando aqui uma calamidade sem a presença física do José.

08.10.1997

Estou aqui no apartamento do edifício Trianon, o espaço que o José amava. Não sei o que será de minha vida de agora em diante.

16.10.1997

Maria, a minha passadeira que trabalha para mim há dezoito anos, veio passar comigo esta etapa custosa de minha vida. Tem sido horrível a falta do José! Estou pelejando para dar entrada na pensão do INSS do José e tem sido difícil. Também uma poupança de seis mil no banco Mercantil que exigiram um alvará, mas não sei se consigo. Vivemos juntos 21 anos, mas ele me escondeu alguns detalhes de sua vida. Por diversas vezes eu lhe fiz algumas perguntas, mas ele nada respondia.

Meus filhos querem que eu vá passar algum tempo em Salvador, na casa de minha amiga Elzinha e já está marcada a passagem para o dia o dia 24 de outubro. Talvez eu fique lá uns quinze dias, voltando no dia sete de novembro.

24.10.1997

Cheguei a Salvador pela manhã. A vida aqui tem sido uma monotonia terrível. Elza e Celso trabalham muito. Graças a Deus eu não os atrapalho em sua rotina.

25.10.1997

Fui à primeira comunhão da Carolina, neta da Elzinha. Foi muito bonita a missa toda cantada. Depois Tanit ofereceu uma mesa de salgados e doces no salão de festas do prédio onde moram.

26 a 31.10.1997

A vida tem sido bem aproveitada. Cedo, Elvira, mãe da Elzinha, e eu caminhamos pela praia. Após o almoço, Tanit sempre organiza um roteiro. Passeio na Lagoa Abaeté, visitas ao Solar do Unhão e na cidade de Salvador, tomar lanches, enfim, ela tem me ajudado muito a esquecer as minhas tristezas. Pena que eu não esqueça o meu Zezé. Ah, que coisa horrível... Que vazio, que falta, que saudade!

07.11.1997

Hoje faz um mês que José desencarnou e estou no avião da VASP, voando de volta a Goiânia. É horrível viajar sozinha, não sei o que será de minha vida. Não sei de nada. Cheguei a Goiânia à noite e Soninha, Celina e Júnior foram me esperar no aeroporto.